Leonardo da Vinci
A Aranha e o Buraco da Fechadura
Após ter explorado a casa toda,
por dentro e por fora, uma aranha resolveu esconder-se no buraco da
fechadura.
Que esconderijo ideal! Pensou ela. Quem jamais havia de imaginar que ela
estava ali? E além disso podia espiar para fora e ver tudo o que
acontecia.
Ali em cima, disse ela para si mesma, olhando para o alto da porta:
- Vou fazer uma teia para moscas - ali embaixo, acrescentou, observando
a soleira - farei outra para besourinhos. Aqui, ao lado da porta, vou
armar uma teiazinha para os mosquitos.
A aranha estava exultante. O buraco da fechadura proporcionava-lhe uma
nova e maravilhosa sensação de segurança. Era tão estreito, escuro, e
era revestido de ferro. Parecia-lhe mais inexpugnável que uma fortaleza,
mais garantido que qualquer armadura.
Imersa nesses deliciosos pensamentos, a aranha ouviu o som de passos que
se aproximavam. Correu de volta para o fundo de seu refúgio.
Porém a aranha esquecera-se de que o buraco da fechadura não havia sido
feita para ela. Sua legítima proprietária, a chave, foi colocada na
fechadura e expulsou a aranha.
A língua e os dentes
Era uma vez um menino que tinha o mau hábito de falar
mais que o necessário.
- Que língua! - suspiraram os dentes certo dia - nunca fica parada,
nunca sossega!
- Por que é que vocês estão resmungando? - perguntou a língua em tom
arrogante - vocês, os dentes, são meros escravos, e seu trabalho
resume-se em mastigar o que eu decidir. Não temos nada em comum, e não
permitirei que vocês se metam em meus negócios.
E então o menino continuou falando, algumas vezes de maneira imprópria,
e sua língua sentia-se muito feliz, aprendendo novas palavras a cada
dia.
Porém um dia o menino comportou-se mal e permitiu à sua língua contar
uma grande mentira. Os dentes obedeceram ao coração, fecharam-se e
morderam a língua.
A partir desse dia a língua tornou-se tímida e prudente, e passou a
pensar duas vezes antes de falar.
O riacho
Um riacho da montanha, esquecendo-se de que devia sua
água à chuva e a pequenos córregos, resolveu crescer até ficar do
tamanho de um rio.
Pôs-se então a atirar-se violentamente de encontro às suas margens,
arrancando terra e pedras a fim de alargar seu leito.
Mas quando a chuva acabou, a água diminuiu. O pobre riacho viu-se preso
entre as pedras que arrancara de suas margens e foi forçado a, com
grande esforço, encontrar outro caminho para descer até o vale.
Moral da Estória:
Quem tudo quer tudo perde.