José Bento Monteiro Lobato
O Gato vaidoso
Moravam na mesma casa dois gatos iguaizinhos no pêlo mas desiguais na sorte. Um, amimado pela dona, dormia em almofadões. Outro, no borralho. Um passava a leite e comia em colo. O outro, por feliz, se dava com as espinhas de peixe do lixo. Certa vez, cruzaram-se no telhado e o bichano de luxo arrepiou-se todo, dizendo: - Passa ao largo, vagabundo! Não vês que és pobre e eu sou rico? Que és gato de cozinha e eu sou gato de salão? Respeita-me, pois, e passa ao largo... - Alto lá, senhor orgulhoso! Lembra-te de que somos irmãos, criados no mesmo ninho. - Sou nobre. Sou mais que tu! - Em quê? Não mias como eu? - Mio. - Não tens rabo como eu? - Tenho. - Não caças ratos como eu? - Caço. - Não comes rato como eu? - Como. - Logo, não passas dum simples gato igual a mim. Abaixa, pois a crista desse orgulho e lembra-te que mais nobreza do que eu não tens - o que tens é apenas um bocado mais de sorte...
As duas Cachorras
Moravam no mesmo bairro. Uma era boa e caridosa; outra, má e ingrata. A boa, como fosse diligente, tinha a casa bem arranjadinha; a má, como fosse vagabunda, vivia ao léu, sem eira nem beira. Certa vez... a má, em véspera de dar cria, foi pedir agasalho à boa: - Fico aqui num cantinho até que meus filhotes possam sair comigo. É por eles que peço... A boa cedeu-lhe a casa inteira, generosamente. Nasceu a ninhada, e os cachorrinhos já estavam de olhos abertos quando a dona da casa voltou. - Podes entregar-me a casa agora? A má pôs-se a choramingar. - Ainda não, generosa amiga. Como posso viver na rua com filhinhos tão novos? Conceda-me um novo prazo. A boa concedeu mais quinze dias, ao termo dos quais voltou. - Vai sair agora? - Paciência, minha velha, preciso de mais um mês. A boa concedeu mais quinze dias; e ao terminar o último prazo voltou. Mas desta vez a intrusa, rodeada dos filhos já crescidos, robustos e de dentes arreganhados, recebeu-a com insolência: - Quer a casa? Pois venha tomá-la, se é capaz... Moral da Estória: Para os maus, pau!
O macaco e o coelho
Um macaco e um coelho fizeram a combinação de um matar as borboletas e outro matar as cobras. Logo depois o coelho dormiu. O macaco veio e puxou-lhe as orelhas. - O que é isso? - gritou o coelho, acordando num pulo. O macaco deu uma risada. - Ah, ah! Pensei que fossem duas borboletas... O coelho danou com a brincadeira e disse lá consigo: "Espere que te curo." Logo depois o macaco se sentou numa pedra para comer uma banana. O coelho veio por trás, com um pau e lept! - pregou-lhe uma grande paulada no rabo. O macaco deu um berro, pulando para cima duma árvore, a gemer. - Desculpe, amigo - disse lá embaixo o coelho - vi aquele rabo torcidinho em cima da pedra e pensei que fosse cobra. Foi desde aí que o coelho, de medo do macaco vingar-se, passou a morar em buracos.
Os dois ladrões
Dois ladrões de animais furtaram certa vez um burro, e como nõa pudessem reparti-lo em dois pedaços surgiu a briga. - O burro é meu! - alegava um - o burro é meu porque eu o vi primeiro... - Sim - argumentava o outro - você o viu primeiro; mas quem primeiro o segurou fui eu. Logo, é meu... Não havendo acordo possível, engalfinharam-se, rolaram na poeira aos socos e dentadas. Enquanto isso um terceiro ladrão surge, monta no burro e foge a galope. Finda a luta, quando os ladrões se ergueram, moídos da sova, rasgados, esfolados... - Que é do burro? Nem sombra! Riam-se - risadinha amarela - e um deles, que sabia latim, disse: - Inter duos litigantes tertius gaudet. Que quer dizer: quando dois brigam, lucra um terceiro mais esperto.