Dreams2

 

 

 

Um cão, apenas

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim - plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito -, eis-me no patamar.  E a meus pés,  no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe seu sono, levanta a cabeça e fita-me.  É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido: gastas, as mechas brancas do pelo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.  Com um grande esforço acaba de levantar-se.  Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto.  Envergonha-me haver interrompido o seu sono.  Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado.  Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem...

Ele, porém, levantava-se e olhava-me.  Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto.  Mas eu não o queria vexar nem oprimir.  Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento...  Mas tudo é tão longe, meu Deus, tudo é tão longe.  E era preciso passar.  E ele estava na minha frente inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração.  Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.

Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada.  Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.

Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino.  Era, no entanto, uma forma da vida.  Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis.  Esteve ao meu alcance; talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta.  Deixei-o partir, assim humilhado, e tão digno, no entanto: como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era seu.

Depois pensei que nós todos somo, um dia esse cãozinho triste, à sombra de uma porta.  E há o dono da casa; e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.

Cecília Meireles

Coleção Rosa dos Ventos (Ed. Bloch)