Alberto de Oliveira

 
 

Rauso*

Para o Sol receber na luz primeira,

Noiva do Sol - como, em festiva sala,

Noiva de Rei - toda era viço e gala

No pomar verde a verde laranjeira.

 

Lidaram sem descanso a noite inteira

Mãos de invisíveis aias a alfaiá-la;

Brando queixume a alma impaciente exala,

O véu de núpcias rumoreja e cheira.

 

Espera. Eis que, porém, de encontro ao seio

O vento a enlaça, beija-a, a envolve toda,

Redemoinhando em súbita rajada.

 

E quando o Sol para esposá-la veio,

Quase despida a viu. Voavam-lhe em roda

As flores da coroa desfolhada.

 

* Rauso = rapto, sequestro